Dress a Girl Around the World – parte 2

Na passada semana publicámos a primeira parte da nossa conversa com a Vanessa Campos, a Sacha Egreja e a Virgínia Otten, responsáveis pelo projecto Dress a Girl Around the World – Portugal. Se não viram, podem ler aqui.

Hoje deixamos a segunda parte.
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Cose Mais – Vão continuar com os encontros aqui na The Craft Company, duas vezes por mês. E quem não tem a possibilidade de vir a estes encontros, como pode ajudar?

 

Virgínia – Pode vir à loja buscar um kit, fazer em casa e entregar cá.

 

Cose Mais – E quem não tem possibilidade de vir buscar o kit? Pode fazer por si?

 

Virgínia – Sim, pode! Muita gente tem perguntado e nós vamos explicando, na nossa página do Facebook está o molde. O molde é simplíssimo, é o pillow case dress. Pode fazê-lo desde que cumpra os requisitos. O tecido tem que ser de algodão, não pode ser transparente, não muito branco, porque se vai sujar num instante…

 

Vanessa – E também não muito escuro, cores alegres… Muitas pessoas têm enviado vestidos já prontos pelo correio. A única coisa que a gente faz é colocar as etiquetas, que são imprescindíveis!

 

Virgínia – Quem não souber costurar, pode contribuir com as cuequinhas, e é sempre uma ajuda preciosa! E tecidos!

 

Vanessa – A gente tem uma necessidade imensa de tecidos… eu iniciei o projecto com recursos próprios e a gente gostaria muito que esse projecto se tornasse auto-sustentável. Por exemplo, as etiquetas sou eu que mando fazer, porque acredito muito no projecto e é a minha colaboração. Conversando com a Virgínia, uma vez, ela me disse que é uma característica da mulher portuguesa ter tecidos que muitas vezes acabam por não usar…  passam na loja e falam “que lindo! Um dia vou fazer alguma coisa!” E não faz nunca! (risos) Eu gostaria de as desafiar a limparem seus armários… esses tecidos todos foram doados… e estavam dentro do armário parados! É uma energia parada, então vamos trazer essa energia para nós! Às vezes é tecido para um bolso… se a gente não tivesse tecido para esse bolso, ía sair descoordenado e a gente tenta ter esse cuidado na escolha dos tecidos… eu e a Virgínia fazemos as combinações. As senhoras quando vêm, é até emocionante, a gente coloca uma cesta aqui no meio com os tecidos e elas ficam escolhendo os mais vibrantes!

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Virgínia – Eu acho que estes encontros são bons… este por acaso é um encontro de costura, mas já falei nisto… se fosse outro encontro, seja do que fôr, é tão importante as pessoas voltarem a se encontrar. Nós somos mulheres… eu sempre vivi numa casa cheia de mulheres… e nós precisamos disto! Aqui conversa-se tanto, há sempre umas lágrimazinhas que saiem e riem-se… Estes encontros fazem muita falta… a mim faziam-me falta! Faz-me lembrar muito a minha infância, numa casa grande, sempre cheia. Isso cá em Portugal acontecia muito antes, nem que fosse no vão da escada, ou no tanque na aldeia, e perdeu-se… Era importante voltar a acontecer, nem que fosse em casa de alguém, não só para conversar, mas para fazer qualquer coisa! Algo útil!

 

Vanessa – E a gente começa a conversar e vê que o problema que uma vive em casa, a outra também vive, ou outros… A percebemos a vida não é ruim! (risos) Todo o mundo vive as mesmas coisas… 

Cose Mais – Relativizamos as coisas…

 

Sacha – E temos eco! Alguém que nos ouve…

 

Vanessa – E até mesmo quando nos deparamos com a realidade nua e crua da vida que não é o nosso universo mas é o universo das meninas da África e de outros países carentes. Uma realidade cercada de violência, abuso sexual, incestos e falta generalizada de infra-estrutura básica. Quando a gente vê as meninas recebendo os vestidos a gente diz “eu tenho mesmo é que dar muito, porque minha vida é abençoada!” 

Eu tive a experiência de ver os meus primeiros vestidos entregues e foi muito emocionante. Hoje temos um problema de logística. Não podemos simplesmente mandar pelo correio para Moçambique. Não vai chegar! E se chegar, vai ser “extraviado”, vai ser vendido… já existem experiências… o projecto já distribuiu mais de 600.0000 vestidos por mais de 81 países do mundo, então sabemos que os “atravessadores” existem. E o que a gente quer é que realmente os vestidos cheguem as meninas! É muito interessante, porque um vestido que eu fiz eu nunca mais vou esquecer! E quando eu vi as fotos, eu chorei muito, nem preciso dizer. (risos) É muito emocionante pensar que estamos fazendo vestidos aqui e que vai fazer uma menina sorrir tão longe daqui. É uma energia incrível.

 

Sacha – E possivelmente é o único vestido que ela vai ter na vida, em primeira mão!

 

Virgínia – O que elas vestem é em segunda mão e usado até cair do corpo, até se desfazer!

 

Vanessa –Tem várias experiências interessantes relatadas no projecto. Um exemplo disso foi uma moça que eu conheci que foi entregar vestidos no Haiti em 2014. Há dois meses atrás, ela voltou ao Haiti e as meninas estavam usando os mesmos vestidos! Emociona você saber que ela está usando um vestido que possivelmente vai ser o primeiro e o único da vida dela! 

 

Virgínia – E que é realmente útil e necessário!

 

Vanessa –Tem uma foto linda, de um médico entregando os vestidos para as meninas e ele diz “esses vestidos parece que vêm com um pacote de alegria. A meninas vestem, começam a sorrir e não param, não querem tirar os vestidos!” Ouvir isso vale cada segundo de tudo o que a gente tem feito. 

 

Cose Mais – Falando da parte logística, como funciona a entrega? Vocês fazem aqui a recolha e depois?

 

Vanessa – A gente separa todos os vestidos por tamanhos… ontem, por exemplo, fizemos a entrega de 35 vestidos para a Marta Baeta (From Kibera with Love). Quando o grupo é pequeno, pedimos os tamanhos. O grupo de Moçambique tem mais de 5 mil crianças, por isso não importa o tamanho, vai sempre servir a alguma menina. A próxima entrega é  para a Rita (Cococi) nos Camarões, que tem quase 50 meninas. Quando o grupo pequeno pedimos os tamanhos… Para a Marta precisávamos de tamanhos de 16 anos. Nunca tínhamos feito tamanhos tão grandes! Tentamos dar prioridade as esses tamanhos que não tínhamos prontos. A gente tem tentado manter uma gradação de 1 ano até 15 anos, para que na hora que chegue um projecto parceiro, a gente tenha os vestidos prontos e possa logo entregar. 

A distribuição é feita por projectos parceiros. A gente já entregou 25 vestidos para o The Big Hand, que é um projecto de um casal português em Moçambique. Já entregamos quase 106 vestidos para o Projecto Fraternidade sem Fronteiras, que é um projecto brasileiro, mas que tem seu foco em Moçambique com mais de 5 mil crianças. Entregamos 35 vestidos, ontem, para a Marta Baeta, do Projecto From Kibera with Love que fica no maior bairro de latas do mundo no Quénia. E agora estamos enviando 50 vestidos para Cococi, nos Camarões. A gente conta com um projecto parceiro, com uma pessoa que se dispõe a levar na própria mala e entregar pessoalmente nas mãos dessas crianças. 

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Virgínia – Há um voluntário que vai a esse país ou cidade da organização, leva e entrega em mãos.

 

Vanessa – O nosso sonho, das três, é entregar pessoalmente.

 

Sacha – E vamos! (risos)

 

Vanessa –A gente está fazendo tudo para concretizar esse sonho. Mas eu falo para as meninas que a gente tem que se preparar psicologicamente porque não vai ser fácil! É tudo muito duro e distante da nossa realidade! Mas é preciso viver isso! 

 

Sacha – Mas temos que ir!

 

Virgínia – Eu quero ver a realidade! Quando eu me fôr embora daqui, eu quero ter visto alguma coisa real!

 

Sacha – É muito melhor irmos lá, vermos e percebermos o que é que as miúdas querem mesmo, para além dos vestidos, o que querem mais, qual a reacção delas… podemos ser melhor mensageiros e motivar muito mais uma equipa de voluntários, se sentimos isso na pele. Quem vê, sente, sente muito mais e consegue transmitir!

 

Virgínia – Há coisas que só lá estando é que se vai conhecendo… por exemplo, os bolsos… é só mais uma coisa para nós, tal como o vestido… é só um detalhe… mas para algumas meninas, o bolso é o único espaço que têm só delas, onde podem guardar os seus poucos pertences. Por isso agora, começámos a fazer os bolsos maiores. A mim impressiona-me tanto, um simples bolso, ser o único sítio que ela tem para guardar seja o que fôr… a nós não nos passa pela cabeça. Esses pormenores só estando lá é que se aprende!

 

Sacha – Temos que vivê-los!

 

Vanessa – Foi a Rita dos Camarões que chamou a atenção para os bolsos… a gente pediu “faça todas as críticas!”. Para a gente é preciso ouvir, porque ela conhece a realidade! Ela falou “achei os vestidos lindíssimos, as combinações fantásticas, muito alegres, mas o bolso é pequeno.” E eu perguntei porquê e ela contou essa história que a Virgínia falou. Essas crianças não têm armários e tudo o que elas têm de mais precioso… entenda-se por precioso, uma folha, uma pedrinha… elas guardam no bolso! E além disso, às vezes, quando as crianças vão atrás de uma bola ou qualquer coisa, elas pegam as sandálias, colocam dentro do bolso e saiem correndo! (risos) Vivendo e aprendendo! Por isso a Virgínia fala “eu preciso ver!” É preciso ver essa realidade!

 

Muito Obrigada Vanessa, Sacha e Virgínia, pelo vosso carinho, empenho e boa disposição!

 

Hoje, dia 6, a vai haver outro encontro de voluntárias na The Craft Company. Quem não puder comparecer, pode sempre fazer os vestidos em casa e enviar para a loja. Sigam o tutorial aqui. Nunca é demais relembrar que o projecto necessita com alguma urgência de tecidos. Enviem os vosso donativos para:

The Craft Company

Praça Dr. Francisco Sá Carneiro 4B

2750-350 Cascais

 

Nota: O texto tinha algumas lacunas que entretanto foram corrigidas. 

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