Dress a Girl around the World – parte 1

De há algum tempo para cá, temos acompanhado, através da redes sociais, os encontros da Dress a Girl around the World na The Craft Company, que têm por objectivo costurar vestidos para entregar a meninas em risco nos países subdesenvolvidos. A grande mentora deste projecto no nosso país é a Vanessa Campos, a quem se juntou a Sacha Egreja, dona da loja onde acontecem os encontros e a Virgínia Otten, artesã e autora do blogue Amo-te Mil Milhões. Na véspera de mais um encontro, conversei com estas três mulheres maravilhosas e fiquei a conhecer um pouco mais sobre o projecto.

Hoje deixo aqui a primeira parte desta conversa.

14088514_1093137084109963_1404887567593911123_n

Cose Mais – Começava por pedir à Vanessa que nos falasse o que é o Dress a Girl Around the World.

Vanessa – É um projecto americano criado em 2006. A fundadora é a Rachel Eggum Cinader. Ela criou o projecto para fazer vestidos para meninas de países que vivem abaixo do nível de pobreza. Muitas dessas meninas nunca tiveram uma roupa, nunca tiveram um vestido e a gente pensa sempre em fazer o projecto de uma maneira que possa dignificar essas meninas e especialmente proteger o corpo delas, que muitas vezes está exposto. O projecto basicamente é isso, fazer vestidos para dar a essas meninas.

Cose Mais – E como encontraste o projecto?

Vanessa  – Na verdade eu vi o projecto há muitos anos atrás. Eu já tinha visto uma senhora chamada Lillian Weber, ela fazia um vestido por dia e faleceu, infelizmente esse ano. Fez 1234 vestidos. Ela era de um outro projecto, mas eu me inspirei nela. Eu tinha uma relação muito, muito próxima com a minha avó que costurava… adorava costurar e eu falei “quem sabe eu consigo fazer esse vestido?”, porque eu não sei costurar (risos) e aí prometi para mim mesma que ía fazer 50 vestidos para doar para as meninas da África. Conversei com uma amiga e comecei a fazer o projecto nos Estados Unidos e depois não consegui mais parar. (risos)

Vim morar em Portugal no final de maio. Tive muita dificuldade em encontrar tecidos baratos. Eu não conhecia nada daqui e por acaso entrei na The Craft Company, encontrei esse anjo na minha vida, a Sacha.  Ela acolheu, ofereceu o espaço… A gente hoje se encontra aqui duas vezes por mês e ela me ajudou muito! A divulgar o projecto, a pedir costureiras voluntárias e surpreendentemente ela falou “vem costurar, mesmo que seja só você!” e no primeiro dia a gente tinha umas 30 senhoras aqui. (risos) E foi até difícil dar o espaço para todo o mundo. E nesse dia conheci a Virgínia, que desde então tem ajudado… Eu digo que as duas têm sido o meu braço direito e o meu braço esquerdo, porque a Virgínia também ajudou muito a gente a divulgar o projecto e a conseguir donativos… enfim, sem as duas isso não teria saído e obviamente sem as voluntárias, porque elas fazem tudo com muito amor e ficam muito felizes de estar aqui!

img_0714

Vanessa e Virgínia

Cose Mais – E para vocês (Sacha e Virgínia), que se juntaram, porquê dar este passo? Porque é que sentiram que tinham que se envolver neste projecto?

Virgínia – Eu… (risos) é incrível, mas eu também tinha aquela história da senhora Lillian Weber na minha cabeça. Tinha visto que a senhora já tinha mais de 90 anos e continuava a costurar um vestido por dia… e achei “esta senhora tem esta idade e faz isto, eu sei costurar minimamente porque é que eu também não faço uma coisa assim? Material não me falta, as mãos ainda as tenho e mesmo que seja 5 minutos por dia, porque é que eu não faço uma coisa assim?” E também tinha prometido a mim própria que ía fazer alguma coisa. Já há uns meses atrás eu tinha feito uma coisa parecida e muita gente também tinha aparecido para me ajudar. Tinhamos feito coisas muito bonitas para mandar aos refugiados na Grécia. E nessa altura ficou algo em mim e pensei “eu não vou… não consigo parar aqui!”, então desde essa altura que achei, ou sozinha, já estava preparada para fazer alguma coisa sozinha, ainda não sabia bem o quê, ou acompanhada, eu vou fazer! Entretanto passado poucas semanas vejo que a The Craft Company anuncia aquele encontro do Dress a Girl… e venho… conheço a Vanessa… e não consegui mais parar. Porque eu acho que estava mesmo à espera que alguém aparecesse com um nome, um projecto…

Cose Mais – Foi um incentivo…

Virgínia – Foi só isso que eu precisava, porque agora não dá mais para parar… é uma paixão! Nós nem conseguimos dormir! (risos)

Cose Mais – E para ti Sacha, foi semelhante?

Sacha – Para mim, sim, foi! Quando abri a loja, há um ano e quatro meses, uma das coisas que decidi é que a loja tinha de ter uma vertente solidária muito forte. Já de família convivi com essa parte da solidariedade, por isso quando um dia tivesse um negócio tinha que ter também este lado. E já agora aproveitar os recursos! Quando a Vanessa entrou na loja, ela estava um bocado frustrada, cheia de dificuldades, não conhecia tecidos, era só ela e uma máquina, pensei “tenho 7 máquinas cá em baixo, uma sala livre… nem sempre está ocupada, temos aulas e workshops, mas não a toda a hora!”. Comecei a puxar por ela “mas é o quê?” e ela lá me ía explicando e contando tudo e eu, de repente, antes de ela estar a acabar a história, eu já estava a ver…

dscn4204

Sacha e Vanessa

Cosemais – Já estavas a ver o que aí vinha… como vão ser os próximos passos…

Virgínia – Já está bem longe… No futuro!

Sacha – Eu sou assim! Estão a contar-me uma coisa e eu já estou a ver… já vi tudo! Isto sai com toda a humildade, sem pretensão nenhuma… é com a vontade e o entusiasmo de andar para a frente. E eu disse-lhe “podemos falar com os meu fornecedores… dou-te a sala, vens para cá…” Eu já tenho um projecto de solidariedade aqui na loja e que vai andando, lindamente, com a disponibilidade das voluntárias, em tricot e como é uma loja que tem coisas de tricot e costura, achei que fazia sentido também… quando a Vanessa entrou, ela diz que eu sou…, mas ela é que é o anjo! (risos) Ela entrou e… é este o projecto! Porque até andava a sondar, mas não estava activamente à procura… Não há coincidências!

Cose Mais – Tudo se conjugou para as três se encontrarem!

Sacha – Sim! E sobretudo saber que tenho aqui, não só o espaço e as máquinas, mas tenho contacto diário e sempre diferente com potenciais voluntárias. É um filão de voluntárias aqui na loja! São mesmo as pessoas certas! As pessoas só vêm cá porque gostam desta área de trabalho.

Vanessa – Eu acho que o projecto aqui acabou se tornando uma grande surpresa porque nós passamos a ter voluntárias, senhoras que muitas vezes estavam sozinhas em casa. Existe um processo também de inserção social dessas senhoras que têm colaborado imenso e têm um talento… Quando eu crescer eu quero costurar como elas! (risos) E elas não estavam usando esse talento…

14264873_309618119400387_1714042111938882578_n

Encontro na The Craft Company

Cose Mais – E sentem-se úteis…

Vanessa – Ontem fizemos uma entrega de vestidos que foram para a Marta Baeta do From Kibera with Love e eu falei para ela “você não imagina o quanto tem de amor nesses vestidos!”. Cada vestido desse, a gente costura sonhando em ver a menina vestida! É uma energia tão boa que cerca isso, que não tem preço!

Sacha – E o divertido que é!

Vanessa – Exacto!

Sacha – A quantidade de pessoas que já nos confessaram que anseiam pelo dia!

Cose Mais – O facto de acompanharem e ver quase em tempo real o impacto que vai ter, faz com que as pessoas queiram ajudar mais? Esta iniciativa é um bocadinho diferente nisso…

Sacha – É um win, win! Faz bem dos dois lados. Foi essa a conclusão a que chegámos. Faz bem a quem damos, obviamente e faz bem a quem está envolvido no projecto! Eu pela primeira vez fiz um vestido! Só fiz um vestido até agora. Já tivemos 3 sessões e com imensas pessoas a querer falar comigo e eu a querer fazer o vestido… e aquilo ficou todo torto!

Virgínia – A sala é pequena para tanta gente que cá vem!

Sacha – Era a primeira vez que eu estava a fazer um vestido e entretanto apareceram pessoas que queriam falar comigo… mas eu queria fazer o vestido! Ficou todo torto, mas fiz! Estava frustrada porque ainda não tinha feito nenhum vestido, mas estava feliz por estar proporcionar tudo isto. E faz-nos um bem incrível! A todas!

Virgínia – As pessoas sentem-se úteis… e são! E aquilo que sabem fazer, a costura que sabem, por mais simples que seja, vêem que é útil! E era isso que eu também já achava, que a costura tal como a culinária, por exemplo, uma pessoa tem que saber cozinhar para sobreviver, a costura, eu acho que também é muito importante e qualquer pessoa devia saber um pouquinho.

14233191_309618882733644_4042054367895708935_n

Sacha

Vanessa –  As pessoas na África precisam do essencial! O vestido é necessário para proteger as meninas, é preciso cobrir o corpo das meninas. A gente tem uma etiqueta própria do projecto e já foi constatado, estatisticamente falando, que houve uma redução do índice de violência sexual contra essas meninas. Não existem pesquisas sobre isso porque são países paupérrimos, mas os próprios pastores das igrejas locais identificaram uma redução no índice de abuso sexual contra essas meninas. Essa etiqueta, é identificada como uma ONG e os predadores que vêem essas meninas com os vestidos, pensam “ela é protegida por uma ONG, não vamos tocar nela”.

14224859_310798609282338_2489222699326723972_n

Sacha – Mal ou bem as ONG têm algum poder dissuasor!

Vanessa – A etiqueta é fundamental!

Cose Mais – É mais do que um simples vestido. É mais do que pôr a menina bonita, é realmente uma ferramenta de protecção…

Virgínia  – E dignidade!

Vanessa – A gente tem entre nós uma coisa muito interessante. Nossos vestidos, quando eles são vistos, uma das coisas que mais falam é que são muito alegres! Então, a gente não escolhe tecidos escuros, a gente toma cuidado para não escolher preto porque algumas culturas não aceitam. A gente escolhe um rosa! Um amarelo! Um laranja! A gente teve uma reunião com uma moça de Camarões, para onde vamos enviar quase 60 vestidos e ela já imagina as meninas indo domingo para a missa com aqueles vestidos coloridos! Porque a gente tem um cuidado… O nosso encontro não começa aqui. Começa em casa. A Sacha recebe doações de tecidos. Ela ajuda a pedir doação às próprias fábricas, aos fornecedores… Os tecidos chegam, eu me encontro com a Virgínia e cortamos os tecidos com uma outra moça, que é a Camila, que tem ajudado muito. Montamos o vestido, uma coisa combinando com a outra…

img_0706

Cose Mais – Já trazem um kit pronto para as voluntárias?

Vanessa – Exacto!

Sacha – Eu pego no kit e meto na máquina. Não saio da máquina enquanto não tiver acabado!

Vanessa – Os kits vêm assim. A gente já teve um trabalho de cortar, de numerar, já está com um bolsinho, já está com a fita e a etiqueta. Quando elas (voluntárias) recebem, pegam e já sabem o vestido que vão fazer. Tudo isso é um trabalho que se tornou muito produtivo!

14457404_318689805159885_5009892141447095443_n

Kits disponíveis na The Craft Company

Cose Mais – As voluntárias chegam e é só porem mãos à obra.

Sacha – E tem a vantagem das clientes chegarem e levam os kits para casa. Depois entregam. Outro dia uma cliente deixou cá um saco com 14 vestidos, que ela fez! Temos estas folhas que eu distribuo quando perguntam como podem fazer em casa, com as instruções, que também estão disponíveis online.

Vanessa – A gente tem recebido muitos vestidos já prontos pelo correio.

Sacha – Évora… Amora…

Vanessa – É fantástico! Isso é muito bonito! Quando você vê, está cercada de uma corrente do bem! Enfim… é um trabalho muito honesto, a gente não aceita dinheiro, só aceitamos doações em tecido, linhas, cuequinhas… Em cada bolso vai uma cuequinha. Esse vestido foi feito pela Virgínia, ela usou cada pedacinho de tecido e é muito engraçado porque a gente vai identificando a personalidade de cada uma no vestido.

Sacha – Isso é que é giro! É que nas doações vêm tecidos que se calhar no dia-a-dia não comprávamos ou é uma compra muito reflectida.

14359088_313304975698368_3776016593784071510_n

Vanessa –  Esse vestido foi feito a quatro mãos. Eu não sei costurar bem mas sabia emendar as faixas e a Camila acabou fazendo o vestido. A gente agora está tentando fazer com mangas porque as fitas podem não ser muito resistentes. Às vezes a gente consegue fazer fitas de tecido, mas nem sempre sobra tecido com essa extensão toda.

img_0711

Vanessa

Virgínia – Quando menos se espera aparece mais alguém a trazer sacos de tecidos ou a dizer “eu vou ajudar!” ou “como é que eu posso ajudar?”… há tanta gente a dizer que o mundo é isto e aquilo, e eu acho tudo tão bonito! Não somos perfeitas, mas são pessoas boas, que querem participar… a intenção é óptima e fazem. Por pouco que seja é bom, é útil! E eu acredito mesmo que juntos somos mais fortes e chegamos onde queremos. E fazemos a diferença!

Cose Mais – E o facto de as pessoas conseguirem fazer algo que sabem que vai ser usado, sentem que o seu contributo é mais válido…

Virgínia – Lá está… sozinha se calhar não conseguia, não tem tempo ou não tem material… e juntos conseguimos!

Cose Mais – E às vezes nem sabemos como ajudar e aqui há uma coisa concreta que se pode fazer…

Virgínia – E estas senhoras… lá está… temos pessoas de todas as idades, mais novas, mais velhas… mas nota-se que sentem uma nova vida dentro delas, porque afinal aquilo que sabem fazer é útil, ainda se faz…

Vanessa – É apreciado! É admirado!

Virgínia – É mesmo necessário!

Cose Mais – Têm também algo a ensinar… Podem ensinar outras que não sabem tão bem…

Virgínia – E gostam de ver estas coisas novas… porque nunca costuraram com tantas cores diferentes. E isso é tão bom ver! Saiem daqui cansadas fisicamente, mas estão felizes! Nem estavamos à espera. Nunca tinhamos imaginado que as pessoas íam gostar tanto!

img_0710

Vanessa – Alguma pessoas têm talento para costurar, outras têm meios, mas não têm tempo, nem sabem costurar e perguntam como podem ajudar. Doem as cuequinhas! Doem tecidos! Precisamos de tecido, muito tecido. Recebemos imensas doações de cuequinhas, porque a gente chegou à conclusão que não faz sentido dar um vestido se a criança não tem uma cuequinha. Recebemos da Holanda, de uma amiga da Virgínia e muitas de Portugal.

Cose Mais – Estão a pensar fazer encontros em outras cidades?

Vanessa – A gente está tentando facilitar o trabalho de quem não pode fazer aqui. Tem pessoas que trabalham durante a semana então a forma que a gente tem é com kits prontos aqui na loja. Distribuimos os kits porque tem gente que não tem recursos mas tem uma habilidade fantástica.

Continua…

 

14520500_321387558223443_7891270281523731948_n

Esta semana cerca de 25 vestidos foram entregues em Moçambique através da The Big Hand Org. Muitos mais são precisos! Vale mesmo a pena ajudar esta causa! Vejam o nosso artigo com um tutorial para fazer um vestido. Podem também contribuir com cuequinhas e tecidos. Neste momento o projecto tem uma maior necessidade de tecidos. Estes devem ser de algodão, opacos, com cores não muito claras (sujam-se facilmente) e não muito finos.

Enviem os vosso donativos para:

The Craft Company

Praça Dr. Francisco Sá Carneiro 4B

2750-350 Cascais

4 thoughts on “Dress a Girl around the World – parte 1

  1. Ola boa noite! Quero muito colaborar confecionando vestidos para as meninas. Tenho os meios necessários. Preciso apenas de saber se em gaia existe algum grupo com quem possa colaborar. Ou onde posso depois entregar os vestidos.
    Aguardo “ansiosamente” o vosso contacto.
    Maria

    • Olá Maria! Os encontros não são organizados por nós, Cose +, mas entrando directamente em contacto com o Dress a Girl Around the World – Portugal, através da sua página de Facebook, terá todas as informações necessárias. Obrigada!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *