Entrevista – Virgínia Otten

O nome do seu blogue, Amote mil milhões, deixa transparecer imediatamente que o trabalho da Virgínia vai muito além da costura. É um trabalho feito com amor infinito onde tecidos e lãs são transformados em seres especiais e únicos, fruto dum trabalho demorado e minucioso mas intuitivo e pessoal.

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Virgínia, ao ver as tuas lebres – e outros animais – ficamos com curiosidade em saber como nascem, como crescem e como deixam a sua primeira casa. Como é o teu processo criativo e qual a fase que mais gostas?

Eu gosto de me deixar levar. Passo o dia a pensar no boneco que quero fazer naquela noite ou no dia seguinte, anoto ideias que surgem quando menos se espera e aproveito tudo o que os meus sentidos captam para me inspirar. Quando me sento para começar a trabalhar opto por esquecer um pouco aquilo que pensei em fazer, tento esvaziar a cabeça e deixo as mãos começar. Entretanto, posso dar uma vista de olhos nos meus apontamentos, por vezes abro um livro infantil dos anos 70/80 e deixo-me deliciar com as ilustrações. Faço um a um, não consigo trabalhar em série. Não é o método mais produtivo (quantas vezes a razão arrasa a intuição e acabo por ter que desmanchar aquilo que me parecia tão boa ideia) mas acho que de certo modo isso acaba por dar uma certa personalidade ao produto final. Talvez por já ter feito tantos, sinto essa confiança de que o processo se vai processando a si mesmo. É o boneco que me vai dizendo o que quer. Não sou suficientemente organizada para saber exatamente o que vou fazer.

Eu gosto muito de ter as mãos ocupadas, costurar é uma terapia. Gosto de manipular a matéria prima e criar algo tridimensional, algo prático, útil. Num boneco, o bordar a cara é o que me dá mais satisfação – só aí, quando a cara dele olhar a minha e eu sentir que ali está algo que transmite uma certa humanidade é que posso passar ao passo seguinte: vesti-lo e prepará-lo para o mundo.

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O teu trabalho tem uma veia poética e emocional muito forte. Ligar esse lado mais emotivo com o lado mais comercial da venda das tuas criações não parece fácil… Como te sentes quando tens que dizer adeus aos animais que fazes crescer? E como é a tua relação com os teus clientes?

Sim, num boneco fica sempre uma grande parte de mim. Mas embora invista neles muito tempo e atenção, a tentação de ficar com um acontece poucas vezes. Já da minha filha não se pode dizer a mesma coisa 🙂 Mas mesmo ela, com o seus quatro anos, percebe que giro, giro é fazer.

A relação com os meus clientes (vejo-os mais como amigos que apoiam o meu trabalho) é óptima. Há pessoas que me contactam há anos. As famílias vão crescendo e eu vou acompanhando. Quando surge a vontade de oferecer algo de especial a alguém, é ao meu trabalho que recorrem e essa confiança é a melhor recompensa que me podem dar.

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A certa altura descreves-te a ti própria como sendo “mãe a tempo inteiro artesã nas horas vagas e blogger em regime voluntário”. Mas, por vezes, ainda mais difícil do que dar um nome a estas novas profissões, é conseguir segui-las de forma minimamente estável e equilibrada. Como se concilia tudo isto? Como estruturas os teus dias para que a artesã consiga criar?

É um desafio diário. Normalmente, durante a semana, das 10:00 às 16:00 tenho a casa só para mim. Parece muito, mas estando em casa há distrações por todo o lado – a dona de casa nunca descansa. Raramente almoço quando estou sozinha, todos os minutos contam (não o aconselho a ninguém). Depois, com os filhos em casa, tento estar com eles sem pensar no trabalho. Se for necessário, às 23:00 volto à carga, já com a família a dormir. É uma tentação, trabalhar a essa hora. Há mais silêncio, mais calma, não preciso de me apressar. Mas é um erro e ultimamente não o tenho feito. Sem darmos por isso, lá fora começam os primeiros pássaros a cantar (sabiam que há um pássaro que acorda às 03:00?) e adormecer torna-se difícil, por mais esgotado que o corpo esteja. Não é saudável e por isso obriguei-me a abrandar. Agora trabalho apenas de dia, deito-me mais cedo e sinto-me com mais energia.

Nos dias em que a família está em casa é muito difícil conseguir ser produtiva. Sem o meu silêncio e espaço não consigo sequer pensar. A casa é pequena, as exigências em meu redor são constantes e por isso aprendi que mais vale estar presente num mundo de cada vez.

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Mas ainda te sobra tempo para ajudar os outros… Em Outubro passado puseste mãos à obra, desafiaste um grupo de pessoas a contribuir também e, juntos, conseguiram fazer e enviar 9kg de roupa, mantas e brinquedos para os refugiados na Grécia. Isso mostrou-nos que a costura, de uma forma simples e abnegada, pode também ser uma forma mais primordial de ajudar o próximo. Como surgiu essa ideia?

Na verdade foram muito mais que 9 Kg de roupa, mantas e brinquedos que consegui angariar. Mas sim, foram 9 kg de coisas feitas à mão por pessoas que, tal como eu, quiseram fazer mais do que assistir passivamente àquelas imagens de horror na televisão. Eu tinha que fazer alguma coisa, ajudar de alguma maneira. Dinheiro não tinha mas tecidos e linhas não me faltavam. E do que é que o ser humano mais precisa para além de água e alimentos? Agasalhos. Não pensei muito nos pormenores, sabia que o mais importante era dar o primeiro passo. Foram mais as pessoas que me criticaram do que as que vieram ter comigo para ajudar mas senti-me verdadeiramente feliz por me sentir tão útil. A costura, a meu ver, é também uma forma de servir o próximo. Em situações como aquelas não há cansaço nem falta de tempo, há urgência. Todas nós trabalhámos muito, com as mãos e com o coração e queríamos ter feito muito mais. Um dos meus objetivos é dar continuidade ao que foi começado naquele Outubro, sozinha ou acompanhada por quem a mim se quiser juntar.

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No teu blogue falas frequentemente de sonhos e de ideias que, como acontece a todos, por vezes “vão ficando em papel” – mas outras vezes ganham vida e crescem tornando-se maravilhosos! Que projectos tens para o futuro como artesã? Algum que possas partilhar connosco?

Hum… tenho, sim, mas não posso partilhar ainda 🙂

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Falando ainda de sonhos e do futuro… O que gostarias de fazer ou aprender ou até alcançar nos próximos anos?

Quero muito aprender a costurar para mim. Fazer a minha roupa será um grande passo em direção à vida que idealizo. Lembro-me de, em pequena, observar a minha avó a dar umas tesouradas e umas cosidelas num pedaço de pano e dali nascer, numa tarde, uma nova peça de roupa. Era pura magia. Não só porque o que fazia era bonito mas porque, lá está, era útil e necessário e ela sabia fazê-lo. É isso que quero alcançar nos próximos anos. Aprender, aprender, aprender.

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E finalmente algumas perguntas técnicas no jeito de termina a frase:

Aprendi a costurar com… a minha avó. Cresci a vê-la costurar e ela tentou ensinar-me várias vezes. Mas com 10, 11 anos, achava o crochet e o tricot francamente mais simples. Os vestidos que fazia para as bonecas eram pouco mais que pedaços de retalhos que ela ia deixando cair ao chão. Foi só mais tarde, quando estava grávida do meu primeiro filho, que senti uma grande vontade de costurar, recorrendo a ela para me ensinar. Passámos bons momentos juntas a costurar e ainda hoje a sinto entre mim e a máquina de costura.

A minha máquina de costura é uma… Bernina activa 210 (e estou muito satisfeita!)

As ferramentas de costura sem as quais não passo são… a agulha e o dedal.

Gosto de costurar para… mim e para a minha família, para a minha casa.

Costumo costurar… de manhã e à tarde e por vezes à noite 🙂 a máquina de costura é tão utilizada quanto o fogão.

Costumo costurar na… sala, a um canto perto da varanda, onde há luz solar.

O meu sonho, um dia, é costurar… de tudo um pouco, com confiança e mestria.

Podes encontrar a Virgínia e o seu trabalho aqui:

www.amo-temilmilhoes.blogspot.com

www.facebook.com/amotemilmilhoes/

 

 

 

 

 

 

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